Já começou a cerimónia de entrega dos Globos de Ouro: existem grandes probabilidades de "Avatar" ganhar o prémio de melhor filme dramático (acabou de ganhar o prémio equivalente da crítica americana) e é pouco provável que o "Fantastic Mr Fox" ganhe o prémio para melhor filme de animação ("Up" é, com muito mérito, o grande favorito). No entanto, a minha opinião pessoal é que o filme de animação lo-fi é muito superior à grande revolução num filme vazio que é o "Avatar".
Começando por este último e pelo lado positivo. "Avatar" pode não ser o primeiro filme a utilizar a tecnologia 3D e a representação digital de humanos, humanóides e outros animais fantásticos mas é o primeiro filme que vejo em que tudo isso resulta num visual realmente credível e fluído. É essa a razão pela qual é considerado um marco: a partir de agora, sabe-se que é possível.
No entanto, o positivo fica-se por aí. O problema não é a história ser demasiado parecida com a "Pocahontas" (essa crítica pode mesmo ser feita a grandes filmes) nem estar cheio de clichés em cima de clichés. O meu grande problema com o filme é o facto de, depois de mais de duas horas de filme, ainda estar indiferente ao que acontece às personagens, ao ponto de não sentir qualquer tipo de emoção em nenhum dos momentos "dramáticos" ou sequer excitação na "grande sequência" de acção final. O problema é uma mistura de personagens santas e injustificavelmente malvadas com diálogos nulos. Podia ser um filme de acção, mas é demasiado parado para isso. A ausência de humor também não ajuda, os únicos risos que o filme provoca são involuntários: um robot com uma faca de mato? Foi sem dúvida imprevisível e cómico.
Tenho a sensação que ver o filme em casa vai ser uma experiência muito estranha, já que não há nada que justifique o filme para além do espectáculo visual. E, comparando com outro marco da tecnologia no cinema como o "Matrix", fiquei muito mais surpreendido com este último. Que pode ter personagens de cartão, maus diálogos, um péssimo actor principal e o seu quê de humor involuntário, mas que utiliza a técnica e a tecnologia para dar mais impacto à acção. E como filme de acção resulta notávelmente. Não sei onde é que o "Avatar" resulta para além de demonstração tecnológica. Pelo menos resulta em sucesso de bilheteira…
Pouco tempo depois de ver o "Avatar", vi um filme que, sinceramente, não tinha grande vontade de ver, mas que meio contrariado lá comecei a ver. Sinceramente, já me desiludi vezes demais com os filmes de animação "alternativos", reduzindo a dose aos filmes da Pixar e do Hayao Miyazaki (que coleccionam obras-primas sucessivas). Mas, em poucos minutos, estava agarrado. E parte da sedução é a imperfeição visual que torna tudo mais absurdo e o humor mais cru. Acima de tudo, quando o filme acabou, já pedia uma repetição.
Não funciona muito bem em termos dramáticos, não se sente grande coisa quando algo acontece às personagens, mas como comédia acerta em cheio. Só ouvir as personagens a falar é um prazer: uma mistura dos diálogos típicos do Wes Anderson com interpretações vocais que funcionam e que ajudam a ignorar alguma da frieza que sinto nos outros filmes do realizador. Para além dos companheiros do costume (Jason Schwartzman, Bil Murray, Owen Wilson), a surpreendente dupla George Clooney e Meryl Streep. A performance do George Clooney é mesmo genial, dando um tom diferente ao filme (não é uma voz típica para uma comédia).
E não me canso de repetir o efeito da animação na pontaria do humor. Imperfeição propositada, é certo (até o frame rate foi diminuido para as falhas serem mais notáveis) mas que não se sente calculista. As perseguições e tiroteios não seriam a mesma coisa com uma animação mais perfeccionista.
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