sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Leituras: "Midnight's Children" Salman Rushdie

Começar a ler um livro como o "Midnight's Children" com expectativas baixas é, no mínimo, complicado. Foi o livro que lançou o autor (apesar de ser mais conhecido pelas polémicas dos "Versículos Satânicos") e, recentemente, foi considerado o Booker dos Bookers, isto é, o melhor livro a ganhar o prémio Booker nos 40 anos de existência do prémio. Tendo lido o tão falado mas nem por isso muito lido "Versículos Satânicos" tinha expectativas mais específicas: esperava uma história complicada com muitas pequenas histórias pelo meio que misturam o hilariante, o banal, a política e a religião.



O ponto de partida: Saleem Sinai, o narrador, nasce no exacto momento da independência da Índia e os acontecimentos da sua vida têm parelelo nos destinos do país. Ele e todas as crianças nascidas na 1ª hora da independência da Índia nascem com poderes sobrenaturais mais ou menos úteis, formando a conferência dos filhos da meia-noite, espécie de parlamento alternativo que reflecte os conflictos da própria Índia.

A minha opinião muito rápida é: sim, é um grande livro, mas gostei mais dos "Versículos Satânicos". A história aqui é mais linear e nada chega ao delírio de várias sequências dos versículos. Existem inúmeros locais pela internet e em outros livros com análises detalhadas das personagens, dos significados, etc, pelo que só acho que devo realçar a genialidade da construção do narrador-protagonista, principalmente por este estar a contar a sua história sendo um desafio intelectual constante tentar perceber o que são exageros, o que são invenções... Em certos momentos da narração, era este desafio que tornava o livro interessante.

Avaliação pessoal: um bom épico familiar ou uma visão da história, sociedade e política indiana (e um pouco do Paquistão e do Bangladesh...) que sofre das expectativas demasiado altas. Grande narrador e passagens delirantes, as sequências da infância do narrador são demasiado longas para manter o interesse no alto.

Para abrir o apetite, o 1º parágrafo do livro (em inglês, que foi a versão que li):

I was born in the city of Bombay... once upon a time. No, that won't do, there's no getting away from the date: I was born in Doctor Narlikar's Nursing Home on August 15th, 1947. Ant the time? The time matters too... On the stroke of midnight, as a matter of fact. Clock-hands joined palms in respectful greeting as I came. Oh, spell it out, spell it out: at the precise instant of India's arrival at independence, I tumbled forth into the world. There were gasps. And, outside the window, fireworks and crowds. A few seconds later, my father broke his big toe; but his accident was a mere trifle when set beside what had befallen me in that benighted moment, because thanks to the occult tyrannies of those blandly saluting clocks I had mysteriously handcuffed to history, my destinies indissolubly chained to those of my country. For the next three decades, there was to be no escape. Soothsayers had prophesied me, newspapers celebrated my arrival, politicos ratified my authenticity. I, Saleem Sinai, later variously called Snotnose, Stainface, Baldy, Sniffer, Buddha and even Piece-ot-the-Moon, had become heavily embroiled in Fate - at the best of times a dangerous sort of involvement. And I couldn't even wipe my own nose at the time.


A ler agora: "Under The Glacier" Halldór Laxness

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Pérolas perdidas I: MX-80 Sound "Out Of The Tunnel" (1980)


Num género com tantas bandas obscuras como o post-punk, vale a pena perder tempo a ouvir novas bandas quase ao acaso. Por vezes encontram-se pérolas como os dois álbuns dos MX-80 Sound: "Out Of The Tunnel" (1980) e "Crowd Control" (1981), principalmente o primeiro, são delícias para quem gosta de rock com uma boa dose de ruído.

Momentos altos:
"Follow That Car" - Faixa acelerada e nervosa com um grande solo de guitarra sobre bateria tipicamente punk e saxofone processado.
"Fender Bender" - Instrumental dominado pelo saxofone mas com muito espaço para uma incansável guitarra simultaneamente técnica e ruidosa.
"Gary And Priscilla" - Uma das faixas mais estranhas em termos ritmicos e melódicos mas simultaneamente uma prova que mesmo as melodias mais estranhas podem ficar coladas ao ouvido.

Fica um link para um blog com mais informações sobre a bandas do que as que eu posso dar aqui:
http://northforksound.blogspot.com/2008/12/mx-80-sound.html

Não abundam os vídeos desta banda, por isso têm de ficar dois vídeos de outros álbuns:



terça-feira, 11 de agosto de 2009

Sudoeste 8 de Agosto 2009

Que melhor forma de (re)começar este blog do que com o relato de uma noite de festival que marca o regresso dos Faith No More a Portugal! Juntei-me a vários milhares de pessoas que ignoraram o medíocre cartaz deste ano (Buraka Som Sistema, Mariza, Deolinda, independemente da qualidade, não são cabeças de cartaz de 1 festival com esta dimensão...) e fiz quase 500 quilómetros (houve quem fizesse bastante mais) para ver apenas 1 banda.

De qualquer forma, pouco depois da 4 da tarde lá estava, para aproveitar o dia de festival e recordar o ano em que ali vi o Peter Murphy tocar as suas influências turcas sobre a opressiva nublina e os The Cure tocarem a sua trilogia (que é o mesmo que dizer, aquele sudoeste de sonho para o publico gótico anos 80). O que vi de bom: o recinto estava surpreendentemente limpo. O mau: a cerveja custava 2€ e aquilo mais parecia uma feira de publicidade do que um festival de música. Era dificil estar sentado sem ter um sapo ou um homem das neves a chatear, para além de existir mais espaço dedicado às marcas do que aos palcos.

Às 19:30 (demasiado tarde para um recinto aberto antes das 16h), o primeiro concerto, no palco secundário, para duas bandas que só conhecia de nome. Os Dr1ve tinham como convidada especial a Lúcia Moniz, numa música que parece que durou metade do concerto e que, quando acabou, fez desaparecer o publico quase por complecto. Seguiram-se os John Is Gone, viam-se algumas pessoas com t-shirts e até existia algum público para os ver. Nenhuma destas bandas chamou a atenção, tocam a sua música mas não se destinguem de tantas outras. No palco principal, dispensei os X-Wife (já os vi várias vezes) e os Blind Zero (não gosto de bandas que se acham as mais importantes do país). Só tive tempo de ouvir estes últimos assassinarem a "Enjoy The Silence" dos Depeche Mode enquanto me dirigi para a frente do palco principal.

Ouvi os Jet só para marcar lugar, e tal como 90% das pessoas só conhecia a "musica do anúncio Are You Gonna Be My Girl". Foram a surpresa da noite: rock a abrir, músicas curtas e rápidas sem pretensões a serem mais do que pura diversão.


Já se sentia a ansiedade do público à espera dos Faith No More (já nas estações de serviço da autoestrada do algarve era fácil detectar os fãs). O concerto começa de forma inevitável, "Reunited", uma cover que já tinham tocado na 1ª fase da digressão. Mas logo a seguir, as músicas "para os fãs" "Land Of Sunshine" e "Caffeine" mostraram que o alinhamento ia ser diferente desses primeiros concertos (com toda a carreira representada). No sudoeste, só 1 música foi escrita antes de o Mike Patton se juntar à banda ("We Care A Lot" a terminar o 2º encore), do álbum dos milhões "The Real Thing" só tocaram duas músicas (a inevitável "Epic" e a pesada "Surprise! You're Dead"), e do último álbum, "Album Of The Year", tocaram os três singles ("Ashes To Ashes", "Last Cup Of Sorrow", "Stripsearch"). Duas covers que não estão em álbuns ("I Started A Joke" dos Bee Gees e "Chariots Of Fire" do Vangelis) e o concerto teve 6 músicas do "Angel Dust" e outras 6 do "King For A Day", sendo que tocaram muitos dos clássicos favoritos dos fãs, deixando "exitos" de fora. Não foi o típico concerto "best of" de uma banda que regressa passados mais de 10 anos.


É injusto destacar membros de bandas (principalmente com a dupla baterista/baixista e um teclista tão interventivo como os Faith No More têm) mas o Mike Patton é um animal! Canta em voz de "monstro da bolachas" e em versão "crooner", sussura, grita, ladra, usa efeitos... E em Portugal tem mais algumas vantagens. Primeiro, sabe falar português. Já em no "Download Festival" tinha brincado um bocado ("Now a bit of spanish... That was fucking portuguese. Just checking..."), cá pode comunicar com o publico em português e até mesmo cantar uma versão da "Evidence" quase integralmente em português. Para além da linguagem, já existe história com Portugal: o Mike Patton passou cá com inúmeros projectos e mesmo os Faith No More já estão longe de ser estreantes. E o último concerto "quando eram uma banda a sério" (segundo eles) foi em Lisboa (eu estava lá!!!). Deu para acusar o público de ser o responsável pela separação e tudo.

Um concerto cheio de "momentos", quem assistiu sai a sorrir e a limpar o pó dos olhos e da boca, com a certeza que as horas de viagem e a gasolina gasta valeram bem a pena.

Setlist:

1. Reunited
2. Land of Sunshine
3. Caffeine
4. Evidence
5. Surprise, You`re Dead!
6. Last Cup of Sorrow
7. Cuckoo For Caca
8. Easy
9. Ashes To Ashes
10. Midlife Crisis
11. I Started A Joke
12. The Gentle Art of Making Enemies
13. King For A Day
14. Be Aggressive
15. Epic
16. Just A Man

Encore
17. Stripsearch
18. Ugly In The Morning
Encore
19. Midnight Cowboy
20. We Care A Lot


Encontrei pelo YouTube várias gravações incomplectas que juntei numa playlist em que fica a faltar a "Ugly In The Morning" e tem algumas músicas incomplectas, mas já é bem bom.

http://www.youtube.com/watch?v=qv5bWk_EdAA&feature=PlayList&p=611F9DBB0789ABBC&index=0&playnext=1

Para quem não quiser sair do blog, fica aqui um cheirinho.